O homem texto de David Coimbra – mulheres e as falas irrefletidas

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Exemplar forma de conquistar a má vontade.

Conseqüência - o inverso
A pessoa mesmo diante de um objeto de desejo, torce por maus resultados. Observe um retrato do cotidiano descrito primorosamente em Zero Hora.

David Coimbra – 19jan2007/Zero Hora
O homem

Era difícil de alguém me ganhar na colocadinha da agulha. No disco, digo. A gente na reunião dançante e tal, aí eu olhava para o Plisnou:

- É chegada a hora da lenta.

Lógico, para a real aproximação com o sexo oposto, só com música lenta. Eu mesmo tinha uma tática imbatível. Espalmava as mãos nas costas dela e fazia uma suave pressão em suas omoplatas com as pontas dos dedos, enquanto cantarolava ao lóbulo macio da sua orelhinha esquerda:

“Você foi toda a felicidade

Você foi a maldade que só me fez bem”.

O velho e bom Rei. Mas, para causar sensação, só se acertasse direitinho na faixa, sem arranhar o disco. Se arranhasse, mó vaia. Mas o degas aqui nunca errava. Erguia, firme, o braço da agulha com o polegar e descia-o suavemente bem na abertura e o Rei: “Você foi…”. Uau!

Por todas estas razões sentimentais, não me desfiz do meu toca-discos. O problema é que a agulha emperrou, dia desses. Primeiro tentei retirá-la com jeitinho, depois forcejei, e nada. Não saía. Já estava suando no instante em que a Marcinha sugeriu, em meio a um bocejo:

- Melhor chamar um homem.

Cara, chamar um homem! As mulheres sempre dizem isso, chamar um homem! Não basta você ser o provedor do lar, não basta você fritar-lhe bifes e cozinhar-lhe risotos e fazer o mate e ser o patrocinador de orgasmos múltiplos. Não! Você também tem que trocar chuveiros, pregar buchas, instalar ventiladores e consertar malditos toca-discos. Deu-me ganas de gritar:

- Aqui está o homem, beibe! Ecce homo!

Mas ela já estava dizendo que conhecia um faz-tudo ma-ra-vi-lho-so, o Tarcísio, e já teclava o telefone para falar com ele e, bem, eu queria muito consertar o toca-discos, então concordei em chamar Tarcísio, o ma-ra-vi-lho-so, o “homem”, embora a contragosto.

Uma hora depois, Tarcísio bateu lá em casa. Fui abrir a porta e, pô!, o sujeito media um metro e noventa. Parecia um zagueiro do Boca. E vestia terno! Alguém já viu um faz-tudo de terno? O Tarcísio. Em 10 segundos ele estava em cima do tapete lá da sala, levantando uma sobrancelha, sorrindo de lado e dizendo alô com voz de tenor. Já viu um faz-tudo levantando sobrancelha? O Tarcísio.

Percebi que o Tarcísio se movimentava com muita segurança, ele com aquele terno dele. Informado a respeito do caso, deu um sorrisinho e ciciou um ah de desdém. Um faz-tudo que cicia ahs de desdém. Dirigiu-se gingando para o três-em-um. Eu olhava, irritado: o “homem” ia resolver o meu problema.

O Tarcísio segurou a agulha, puxou-a num movimento seco e… nada. Outro puxão, e outro, e mais outro. Nada. Ficou uns bons cinco minutos lutando contra o aparelho e fracassou bisonhamente. Ele. O ma-ra-vi-lho-so. O homem. Aí, entrei em ação. Disse:

- Deixa, Tarcísio, senão é capaz de quebrar o braço do toca-discos.

O “homem” foi-se embora, derrotado. E eu, confesso, festejei em silêncio. Minha dignidade masculina estava salva. Pena que a agulha do toca-discos continue emperrada.

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