O direito que se tem de não ter boa vontade
Texto: Convivendo com a má vontade no Cap. V – Evitando conflitos
Livro sobre a Inveja: ISBN 85-312-0911-0 de Nilton Bonder
Uma história relatada no Talmude (B.B. 7a) retrata uma situação perfeita para a nossa análise da má vontade:
Certa vez, um homem iniciou a construção de um muro em frente à janela de seu vizinho.
O vizinho protestou: “Você está bloquando a luminosidade da minha casa”.
Este respondeu: ” Vou fechar então sua janela e abrir outra para você, acima do nível de meu muro”.
“Não”, disse o vizinho, “você vai estragar a minha parede se fizer isto”.
“Neste caso”, disse o homem, “vou demolir sua parede e reconstruí-la com uma janela acima do níveldo meu muro.”
“Não, de maneira alguma”, revidou o vizinho rapidamente, “uma única parede nova numa casa antiga não vai ficar muito firme.”
“Nesse caso”, disse o homem, “deixe-me demolir toda a casa e ireir reconstruí-la com janelas acima do nível do meu muro.”
“E onde é que irei morar durante o tempo da contrução?”, disse o vizinho pensativo.
“Eu alugo uma casa para você durante este período”, disse o homem.
“Ah… não. Eu não quero me dar ao trabalho”, suspirou o vizinho.
O Rabi Hama disse: “O vizinho tem todo o direito legal de impedir a construção do muro”.O vizinho não tem nenhuma obrigação de se dar ao trabalho.
Perceber isso é fundamental, porque nos permite visualizar a situação do ponto de vista do outro. (…) Somos martelados pela constante repetição da idéia de que “fizemos de tudo, mas o camarada não quis de jeito nenhum… e o que custava?”
Na verdade, nenhum de nós pode avaliar quanto custa, e esta é a questão. Ninguém pode mensurar o trabalho que daria ao vizinho esta mudança. Suas peculiaridades e idiossincrasias não são necessariamente as mesmas daquele que o pressiona (…)
Esse texto marcou para mim uma mudança de paradigma.
Convivi com a má vontade, e me entristecia.
Essa pergunta martelava também na minha cabeça – o que custa?
O direito do outro discordar, não colaborar, está implícito no livre arbítrio.
Enquanto não consegui respeitar essa lei, como um princípio inviolável, sofri muito.
Perceber que a escolha do outro era, para ele, a melhor que poderia manifestar, mesmo que fosse a pior para mim, foi uma bandagem asséptica em ferida ardente.
Pensava eu, que o fato de alguém discordar, se devia a minha péssima argumentação.
Foi dureza entender que nada tinha a ver comigo, nesse momento, eu era apenas uma insignificante criatura diante de uma escolha pessoal e intransferível, o direito cósmico ao livre arbítrio.
Arquivado em: Princípios



Adorei a história! Faz pensar demais… Respeitar a decisão do outro, sobretudo quando nos contraria diretamente, requer uma humildade, muitas vezes, de difícil acesso.
Obrigada e abraço!
Estou grata por sua coloborar com sua reflexão Carol.
Direito é algo meio confuso para leigos, eu acho.
Os sentidos quando confunsos tentem a paralisar na tentativa de se reorientar. As leis importantes deveriam, a meu ver, estar colocadas em linguagem bem acessível ao alcance da população. Para mim, é assim que se saberia o que está na alçada do direito, ou, na da escolha. Dou graças a alguns iluminados que tornam claro esses acessos, como dizes. Bjs!