A busca do medo
Fechei as portas do coração ao medo. Ele chegava com aquela expressão de culpa e desespero. Quando elevou a perna e ia pisar em solo afetivo, eu o impedi de entrar.
Bateu em todas as janelas, forçou a porta, se debateu contra as paredes, até desistir. Não abri.
Sei que andou por aí feito mendigo, bebendo qualquer tipo de água, afinal a água limpa não é pública é privada. Vai pegar um doença… Ah, dane-se. Vou viver a minha vida, estou segura, aqui ele não entra.
Eu o mantive fora de mim, sem qualquer abertura, diálogo nem pensar. Até que o vi tombar.
No começo eu estava mais lenta, depois um pouco mais pesada, em algum momento percebi que arrastava um meio-morto enquando seguia com a vida. Era o medo.
Confesso que fustiguei o desgraçado, filho da mãe, cagão.
Sai de mim! Não quero te ver, não quero te ter, não quero o teu amor.
Nada. Apenas fiquei mais fraca.
Tenho que saber como fazer para cortar fora, algo que não desata.
Aproveitei que ele não se movia mais e dei umas cutucadas para ver se não era uma trapaça. Vou ter coragem e chegar perto para ver como me livro desta praga.
O horror veio como um golpe de ar gélido. Ao despi-lo, para descortinar suas artimanhas, descobri que era pura veia e músculo, todo retezado, sofrimento puro, sem máscaras.
Resolvi colocar um apoio sob sua cabeça para um maior conforto, quando me afastei, em pânico, percebi que ele era eu. Eu, veia e músculo, acolhendo a desacordada. O pavor me acordou.
Sentada, com o coração aos pulos, pensei muito, a imagem ainda impregnada.
Hoje, abro as portas do coração ao medo, talvez ele não esteja tão próximo que facilmente eu o encontre. Mas, vou buscá-lo e falar que seu espaço na sala mais acochegante do corpo está reservado, abrigo que eu nunca deveria lhe ter negado.
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