O mundo como escola

 

Instrutores Populares
Já pensou um bairro inteirinho se transformando em escola a céu aberto?
É o que defende o jornalista Gilberto Dimenstein.
Na verdade, isso já vem acontecendo no bairro de Vila Madalena, desde 1997, quando Gilberto criou a Cidade Escola Aprendiz, um laboratório de inovações pedagógicas. A experiência de sucesso vem sendo indicada inclusive pela Organização
das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como referência mundial de inclusão social pela educação.

Gilberto é colunista da Folha de S. Paulo e coordena os projetos da Cidade Escola Aprendiz, além de ministrar palestras pelo Brasil afora e escrever livros. Agora está lançando sua mais nova cria: Escola sem sala de aula, junto com Ricardo Semler e Antonio Carlos Gomes da Costa, em que ressalta a importância de toda a cidade ser uma escola.

 

Esse paulistano de 47 anos foi um dos palestrantes do Fórum Mundial de Educação, que aconteceu em abril na cidade de São Paulo e reuniu cerca de 100 mil pessoas. Ali, ele pôde pela primeira vez expor o que seria essa idéia inovadora de uma “escola sem sala de aula“.

 

A galera do Conselho Editorial Jovem da Vira conversou com Gilberto para entender melhor que história é essa.


Quem é Gilberto Dimenstein?

– Faço terapia há muitos anos para tentar responder essa questão. Não sei direito. Acho que o mais importante no processo educativo é justamente essa: saber quem você é e o que você representa no mundo. Talvez o momento sublime da vida do indivíduo é quando ele junta o que ele é com o que ele faz. Sou um indivíduo curioso e que fez da curiosidade uma forma de estabelecer laços construtivos com as pessoas. Sou um curioso que faz pontes.

Que pontes você fez até hoje? Você acredita que a mídia é participante ativa na educação?

– Para mim a comunicação é uma modalidade educativa. O jornalismo é uma modalidade educativa através da informação. Não é uma preocupação só em informar, mas também em formar. A mídia que não tem esse papel é uma submídia. É uma mídia de baixo valor social. E quase toda a minha vida adulta eu trabalhei com isso. O importante nessa coisa é que o jornalismo comunitário é aquele que tem um olhar não só para assuntos sociais, mas para os processos de desenvolvimento de uma comunidade, então o foco é muito o capital social.

Qual a diferença entre professor e comunicador, então?

– O comunicador é o educador sem a sala de aula e o educador tem que ser o comunicador com sala de aula. O professor-escola tem que ser o orientador para o aluno navegar nas comunidades de aprendizagem. Para mim não há uma separação na medida em que o professor vai transmitir uma série de dados que tenham significado na vida pessoal, e o comunicador também.

O seu trabalho hoje tem a ver com a sua trajetória enquanto aluno dentro de uma escola?

– Eu tinha o perfil de ser alguém muito curioso por natureza e a escola não atendia a minha curiosidade. Eu era um deslocado escolar, um aluno que não conseguia atender os requisitos básicos da escola. E, como era, ao mesmo tempo, um aluno curioso – e um péssimo aluno –, eu acabei desenvolvendo habilidade de educação informal. Então, para mim, o mundo passou a ser uma escola, já que a escola não atendia isso. Isso influenciou muito o meu olhar como educador. E também o jornalismo pra mim foi uma escola. Muita coisa eu aprendi lendo jornal e revista.

Como você, tem muita gente que passa por isso ainda hoje.

– A escola é um ritual iniciatório. Você tem que cumprir esse ritual, porque tem que passar de ano, tem que fazer uma faculdade. É impossível não passar por isso.

Você acha que a escola ainda pode chegar ao ponto de ser o despertador dessa curiosidade?

– Eu acho que a escola faliu. Ela tem que ser um grande centro de administração de curiosidades e possibilidades, porque a educação é para toda a vida. O último dia de vida é o último dia de escola. Quando o currículo diz respeito à vida da pessoa, você pode vincular as outras matérias a esse currículo, e o professor é o orientador dessas várias matérias. Assim, geralmente o grau de aproveitamento é alto. Por isso, é fundamental você acoplar algum grau de exercício de responsabilidade em cima do aprendizado. Acho que todas as escolas têm que ter programas comunitários e todos esses programas têm que ser vinculados às matérias. E voltamos ao conceito de escola sem sala de aula. Tudo tem que ser uma escola, tudo tem que ser um lugar de aprendizado, qualquer um pode ser um educador, qualquer um pode ser um aprendiz. Cada lugar vai ter que criar os seus espaços de integração com a comunidade.

Para você que se sente um educador, o que é educação hoje e como deve ser?

– Eu acho que educação é um processo muito complexo para achar que só a escola é um espaço para ela, ainda mais em uma época como essa, com tanta velocidade de informação. Por isso, a gente usou esse conceito de bairro-escola, que a gente desenvolve aqui na Vila Madalena. O bairro-escola é para transformar todo o espaço comunitário em espaço de aprendizagem. Tem uma praça que virou uma sala de aula, um beco virou uma galeria, os galpões viraram espaço de arte, dança, músicas, esporte.
No bairro todo você tem escola de circo, escola de vela, escola de brinquedos, uma danceteria que tem escola de DJ´s, um hall que é um cinema. São todos espaços de educação. O melhor exemplo de cidade-educadora é Barcelona. E posso dizer que o único bairro-educador que o Brasil tem é a Vila Madalena, no sentido intencional. A escola reproduz uma forma de você encarar o conhecimento de forma muito empobrecida, em que o conhecimento é um grupo de matérias, de informações que você tem que dar em um prazo X de anos, que equivale a um número Z de diplomas. Isso daí não forma pessoas em uma sociedade que exige muita criatividade, intuição, trabalho em grupo, muitas habilidades relacionais.
Eu costumo dizer que educar é ensinar o encanto da possibilidade para que cada um possa desenvolver seu projeto de vida. Quando você tem um projeto de vida, você é autônomo. E se você é autônomo, é solidário, é o sujeito da ação. Então pensar qualquer coisa dentro da educação sem isso é ridículo.

Então porque esse modelo de escola não acabou e ela não se abriu à comunidade?

– Porque é muito difícil mudar a escola. Você não tem onde deixar a criança até os 18 anos de idade. Porque as pessoas se acostumaram, porque existem modelos de ascensão social que dependem de você entrar na faculdade. A sociedade valoriza o passar de ano.

Qual a idéia de fundo do livro Escola sem sala de aula, que você está lançando?

– Que toda a cidade seja escola dela. Cada vez mais os pais vão percebendo que é fundamental que a escola tenha estímulo ao voluntariado, à associação de idéias, ao choque cultural. Aliás, eu tenho até uma noticia exclusiva para dar para vocês: o Aprendiz já foi sondado para replicar o conceito de bairro-escola no centro da cidade, na Vila Maria, na Móoca e também na Avenida Paulista. E o nosso papel é facilitar essa integração.

O que você acha da tentativa das escolas públicas abrirem nos finais de semana para práticas de esportes e integração?

– Acho super importante. É um passo avante. Só acho que tem que ser radicalizado. Você tem que fazer com que parte das aulas seja fora da escola, mas de forma qualificada. Se você quer melhorar a educação, existe uma série de questões óbvias: capacitar o professor, melhorar os materiais, os laboratórios de informática… Mas tem uma coisa fundamental e que no Brasil quase não existe é uma escola de formação de diretores: para que eles sejam empreendedores sociais. Para saberem fazer a articulação da comunidade, de pais e professores na escola, para saberem aproveitar toda a riqueza de uma comunidade. Que eles não sejam só gerenciadores de alunos em sala de aula com professores. É o que eu chamo de pedagogo comunitário, que saiba fazer a união da escola com a comunidade.

O que você diz de experiências que têm como objetivo fazer com que a criança e o adolescente passem a ser produtores de informação?

– Uma das habilidades contemporâneas é trabalhar com a mídia. Então, programas como esse tem várias coisas positivas. Uma delas é trabalhar criticamente com a mídia, trazer a mídia para o processo educativo, que é fundamental. Mas, o mais importante disso tudo é você trabalhar com o aluno na condição de produção de conhecimento. É o protagonismo em estado pura.
O aluno analisa todas as informações da mídia e, a partir daí, produz. Todos vocês aqui (jovens do Conselho da Vira) de alguma forma trabalham em projetos de protagonismo. Por que vocês são diferenciados? Porque vocês são estimulados a serem críticos e a atuarem como produtores de coisas. O que eu quero é vocês sejam a norma, e não a exceção. Agora, imagina se vocês estivessem limitados apenas ao conhecimento escolar: história, geografia… como a maioria? Vocês mostram como tem que ser a escola sem sala de aula.

Foi a primeira vez em que crianças e adolescentes ocuparam espaço dentro do Fórum Mundial de Educação. Foram aproximadamente 8.730 crianças, adolescentes e jovens, cerca de 10% da população do Fórum. Você considera válida essa mudança?

– Já é uma mudança conceitual. Uma mudança da percepção de ouvir o outro. Porque criança não é adulto pequeno. Quando eu falo projeto de vida, não é que você tem que ter 25 anos. Projeto de vida é uma coisa constante que você vai montando. Isso é uma questão fundamental. Para mim o Fórum foi importante porque foi a primeira vez que sistematizamos a experiência do bairro-escola.

Você é contra o vestibular?

– Eu sou contra, porque não produz aprendizado. E se, para mim, educar é ajudar as pessoas a terem projetos de vida, a serem independentes, o que adianta a pessoa saber tabela periódica? Ela tem que ter habilidades de expressão, de uma leitura crítica da mídia, saber quem é no mundo. A tabela periódica é muito importante se você quiser na sua área conhecer ciências, mas ela não pode decorar essas informações. Agora, por outro lado, eu acho que as pessoas têm que enfrentar os rituais iniciatórios, do contrário elas estão fora do mundo.

Qual a sua opinião sobre as cotas para afrodescendentes nas universidades?

Eu gosto da idéia de cotas desde que o aluno preencha um patamar mínimo dentro da avaliação – apesar de achar que você não pode ter critério nenhum. Mas desde que você ajude a pessoa a recuperar algumas defasagens, senão ele vai ficar o tempo todo sendo refém do seu passado.

Texto Isis Lima Soares, Richele Manoel, Marcílio Ramos e Juliana Rocha
Fotos Luciney Martins/Rede Rua

Site Revista Viração
Tá na mão

 

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Cidade Escola Aprendiz
Rua Belmiro Braga, 154
Vila Madalena – São Paulo – SP
Tel: (11) 3813-7719
www2.uol.com.br/aprendiz
gdimen@uol.com.br

Fonte: Matéria publicada no Site SETOR3

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Uma resposta

  1. […] também pela família. O texto acima destaca o que muitos autores, terapeutas, filósofos e educadores percebem e buscam nos alertar – nossa preocupação deveria se voltar à formação humana, […]

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