Identidade vs. Futuro

[…] quem busca a sua identidade fora de si está condenado a viver na ausência de si mesmo, movido pelas opiniões e desejos dos demais […]

[…] Fala-se muito em adequar a educação às necessidades ou condições que prevalecerão no futuro.
Isto é surpreendente por três motivos:

a) – Não sabemos como será a vida no futuro e qualquer predição nesse sentido é apenas uma extrapolação do presente.
Mas, se é o presente que nos preocupa, o qual de alguma maneira não é satisfatório, do modo que a educação está em crise, podemos pensar num futuro definido desde esse presente como uma continuação dele?
Se o presente que vivemos surgiu de nosso modo de pensar e sentir e não gostamos dele, podemos aceitar um futuro que surge desse mesmo modo de pensar e sentir? 

b) – Nós, os seres humanos, fazemos o mundo que vivemos em nosso viver. Ele surge conosco. Então, como poderíamos especificar um futuro que não nos pertencerá porque será feito no viver de nossos filhos e filhas e não por nós mesmos?
Por acaso queremos tirar deles essa responsabilidade e fazermos nós o mundo que eles farão e viverão especificando-o desde agora?
Se quisermos formar nossos filhos agora para que eles façam, no futuro, um mundo que nós especificamos neste momento, onde ficam eles?

c) – Nós, os seres humanos, vivemos no presente; o futuro é um modo de estar no presente, e o passado também.
Se quisermos preparar nossos filhos para o futuro, fazendo de nosso presente o seu futuro, nós os negamos e alienamos em algo que não lhes pertence, obrigando-os a buscar a sua identidade fora deles. E quem busca a sua identidade fora de si está condenado a viver na ausência de si mesmo, movido pelas opiniões e desejos dos demais, “não estará nem aí”.
Nós pensamos que o futuro deve surgir dos homens e mulheres que viverão no futuro. Homens e mulheres que deveriam ser íntegros, autônomos e responsáveis pelo seu viver e pelo que fazem, porque o fazem a partir de si; homens e mulheres sensíveis, amorosos, conscientes de seu ser social e de que o mundo que vivem surge com seu viver.
Tais homens e mulheres podem ser assim apenas se não crescerem alienados, se crescerem no respeito por si mesmos e pelo outro, capazes de aprender qualquer atividade, porque sua identidade não está na atividade, mas em seu ser humano.

Pensamos que a tarefa da educação é formar seres humanos para o presente, para qualquer presente, seres nos quais qualquer outro ser humano possa confiar e respeitar, seres capazes de pensar tudo e de fazer tudo o que é preciso como um ato responsável a partir de sua consciência social. Conseguir isso é o propósito desta proposta educacional. […]
Fonte: Maturana e Rezepka, em Formação Humana e Capacitação

Inúmeros jovens hoje buscam espaços comunitários na esperança de um espaço de existência. Saem dali muito frustrados porque ali também não podem existir como desejam, sentem-se sufocados. E se formos ver como a familia toda se sente, também é assim… sufocada. As relações de trabalho também, empresários e empregados queixam-se de forma semelhante…
Voltamos os olhos à educação e, ela pretende a capacitação de seus alunos, não a sua formação. Um engano praticado também pela família. O texto acima destaca o que muitos autores, terapeutas, filósofos e educadores percebem e buscam nos alertar – nossa preocupação deveria se voltar à formação humana, é ela que capacitará as pessoas para o que surgirá.

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