Vida líquida

Os surralistas captaram lá no passado imagens do que hoje é a nossa vida . Uma vida que se liquefaz. As consistências se perdem e quase tudo lembra os relógios de Dali.

Vida liquidaSegundo Bauman, “trata-se de viver na indiferença, no desprendimento, e, por isso mesmo, tal existência se torna repleta de preocupações com relação a mudanças e términos, muitas vezes mais doloridos do que se pretendia. Ao lado do efêmero vem o medo de ficar para trás, de não acompanhar a fluidez e a velocidade dos eventos e produtos, de se tornar dispensável, dejeto, lixo-humano – de se tornar ninguém.”

Lembra uma sensação de terror que senti ao ler A Fall of Moondust*, de Arthur Clarke, uma premonição (na falta de palavra com sentido mais adequado) de estar vivendo em um mundo sem as ferramentas adequadas, contando apenas com a inteligência e uma capacidade absurda de adaptação.

O capítulo 6 de Vída Líquida – Aprendendo a andar sobre a areia movediça, me reportou a essa lembrança. Há um certo conforto em ter a vida um pouco mais longa, ser mais experiente, o que não diminui o estresse da sensação de estar vivendo com um pé em cada dimensão, uma visível e outra pressentida através de expectativas, de leituras, imagens.

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*CLARKE, Artur C.; Os náufragos de selene; tradução: Jorge Luiz Calife – Rio de janeiro : Nova Fronteira, 1984.
O livro fala dos esforços para o resgate da nave Selene, que naufragou em um mar de poeira cósmica no momento em que ocorre um terremoto lunar.

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